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terça-feira, 17 de agosto de 2010

MUITO MAIS QUE UM PERFIL





Paulo Nascentes

O episódio merece profunda reflexão. Alguma lição sempre vem, tanto melhor. Para isso faíscam os episódios. Com a meteorologia do inusitado, as chuvas de verão trazendo uma aflição dentro do peito, a esperança do sol de primavera precisa ser acessada na meditação respirada e atenta. Orelha-em-pé, felino aceso que finge dormir, salto e adrenalina ligados. Ainda assim, susto, surpresa, perplexidade, ataque súbito de ciúme, aspereza na voz e a espada aguda da ironia podem chegar de tocaia, tarde da noite, nos caminhos íngremes da convivência a dois. Respirar consciente é preciso. Viver não é preciso. Navegar é preciso. E perigoso.

O episódio conta de um internauta sessentão, blogueiro recém-saído das fraldas da navegação assistida pelo tópico ‘Ajuda’, jogado de repente sobre o tatame da incerteza, derrubado pelo perfil incompleto de pouco mais de três linhas e omisso no essencial: a felicidade gostosa dos adultos que se trabalham nas escolas diárias do autoconhecimento, do amor e da gratidão. Cuidando assim de suas águas internas. A identidade das duas crianças, por força da lei, seja preservada. A embirrada menina birrenta e o menino de olhar atônito e embaçado emergiram há pouco de desvãos subconscientes da multidimensionalidade psíquica que somos cada um de nós. Sejam acolhidas essas crianças pelo beijo sagrado dos avós e tios-avós que somos também. Mesmo que não se possa chegar perto da criança ferida no momento mesmo dos trovões e da pirraça. Do frio desértico, da secura, do espernear esbravejado. O mistério de nós mesmos é o doce encanto da vida. E perigoso.

Com a Filosofia Clínica, pelas mãos da fenomenologia, lembrou-se da historicidade de cada um, das peculiares Estruturas de Pensamento, dos diferentes perfis em interseção. O perfil lembra as faces de um cubo, sólido cuja geometria constitutiva impede a visão simultânea de todos os lados, todas as faces, todos os ângulos ao mesmo tempo. Mas, ao mesmo tempo, a vivência nos permite confiar-desconfiando, como dizia a vovó. Tem trapaça de percepção, sim, mas tem também o rearranjo da figura completa em alguma instância do ser-que-sabe. Simples assim, sem iniciais maiúsculas para não levantar suspeitas de misticismo, um senhor sério e venerável, mas que tem andado muito com más companhias, a mistificação a pior delas. Com a Medicina homeopática foi investigar a totalidade sintomática da situação, presente nos sujeitos, na esperança de levantar sintomas raros, estranhos, peculiares, atento à individualidade dos sujeitos. Não se cobrava chegar ao similimum ainda na anamnese ou na primeira consulta. Precisaria checar o repertório de possibilidades, traduzida a linguagem dos impacientes. Sim, a impaciência tinha a espessura da massa de concreto afastando o abstrato das nuvens e dos orvalhos matinais. Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Com o Aikido, aguardava até o último instante a chegada do shomen-uchi, golpe da mão em espada de cima para baixo em direção à cabeça, para então decidir-se pelo irimi, o tenkan ou o kaiten, nomes de esquiva e não de iguarias de restaurante japonês. O fundamental era preservar a cabeça, o coração e demais órgãos nobre, de preferência de ambos, em busca do reequilíbrio da energia e da recuperação da união estável, confrontada com o princípio da incerteza dos manuais de física quântica.

Pensando agora na paciência do leitor e da leitora, o autor da crônica tragicômica segue ao epílogo, ao ver os primeiros raios de sol de primavera na trégua do retorno ao leito de tantas alegrias e cumplicidades, de tanta ternura e tesão. A esperança parece convidar, senão ao diálogo, ao menos ao silencioso encontro da transdisciplinaridade aplicada, que o tímido beijo matinal vem propor e reforçar. E assim o projeto de lei segue tramitando na câmara do cardíaco e no senado do centro hara. Aprovado, seguirá à sansão presidencial, nesse caso exercida pelo colegiado do amor e da arte de viver a dois, o decreto irrevogável da sensatez em consonância com a lei cósmica. Mesmo com iniciais minúsculas, como requer a prudência diante da modernidade, por vezes um tanto pernóstica, a lei cósmica se cumpre.