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domingo, 26 de junho de 2011

E AIKIDO MAIS UM PASSO NA ARTE DA TRANSMUTAÇÃO

Paulo Nascentes

Preciso fazer fortes minhas pernas. Preciso disso. E quero. Joelhos se façam robustos e flexíveis: robusta deve ser a flexibilidade a sustentar em base segura o aikido que me sustenta em nova base. Preciso de novo correr, caminhar, lançar-me aos saltos em busca da vontade robusta, mas inflexível com desculpas deslavadas da preguiça insinuante. Sem essa preparação paralela, como girar sereno e preciso sobre os calcanhares e o gordinho que tem sob os dedos dos pés, sem que o restante do corpo perceba o esforço, desnecessário, e que não veio? Como girar meu corpo às oito direções com a ágil leveza de bailarino, que mal toca o solo que o projeta em precisão estética? Não há de ser sem treino e mente livre, aquietada e esperta. Também disso preciso. E quero.

Preciso espelhar-me na agilidade imóvel dos felinos, sempre com o bote na ponta da língua, poema sabido de cor e salteado. E sempre respirando inteiro no ventre da própria vitalidade, centro do equilíbrio e do poder na unidade corpomente. Preciso estar sempre no centro imóvel-giratório, origem de cada movimento irrepetido e vasto e único e elástico, devolvendo ao vazio o que do nada veio em ameaça – agora mansa sintonia, harmonia, inação readquirida, tranquila, imobilizada. Preciso repetir os movimentos em sua gramática rigorosa até que se tornem discurso, percurso bom de estilo, de elegância e simplicidade. Como vi na dança do mestre ante meus olhos perplexos. Também isto quero.  E preciso.

Quero o domínio pleno e sem esforço do faixa-preta que se sabe neófito na arte marcial sem-fim em que se iniciou. E mestre, sem que isso o deixe presunçoso, mas, antes, sólida e humildemente assentado no zazen da alma, aberta e plena, transparente à Vida. Disso preciso desde todos os milênios contraídos no Agora. Em cada Agora único que se abre no treino a cada instante. A inteireza que uma sessão de aikido libera no contato com o Ser Essencial eu quero. Preciso. Seja cada movimento destituído do querer condicionado do eu pessoal, mas antes transbordante da pulsão do Ser, que resgata o equilíbrio universal em cada ação minimalista. O movimento em dose mínima e justa a recompor a ordem natural. A elegante beleza irimi nage* e instantânea da eficaz resposta. Nem menos nem mais – o retorno atemporal à Paz.