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sábado, 10 de dezembro de 2011

ANO 2052: um olhar do futuro


Claude Piron

(Brincando com seu computador, meu amigo J. L. – ele insiste que eu não diga seu nome – por um acaso encontrou um programa que lhe possibilitou um acesso a um arquivo do tempo futuro, mais precisamente a uma série de documentos digitados nos anos 2050. Infelizmente ele não percebeu exatamente o que ele fez, e agora ele não encontra novamente o caminho para chegar ao tal valoroso documento. Mas, tive uma sorte grande porque tendo visto que o texto era sobre comunicação linguística, ele teve a ideia de imprimi-lo porque ele sabe que tenho grande interesse sobre o assunto. Eis o texto...)

Senhores jurados,
Vocês ouviram os depoimentos. Não resumirei as provas dos fatos porque seria perda de tempo. Elas são mais do que eloquentes. Mas quero alertá-los sobre um ponto, ou seja, como que frequentemente as testemunhas usaram a expressão “como se”: “eles agiram como se não houvesse alternativa”, “como se não houvesse fatos possíveis de serem controlados”, “como se nossa proposta fosse ridícula”, “como se a língua concernente não existisse”, etc... etc... O retorno a esta palavra enfatiza, como persistentemente os acusados negligenciaram a realidade. Eles supostamente pertencem a uma elite política, econômica, cultural, universitária ou social do mundo; eles tinham cargos de grande prestígio e responsabilidade; as decisões deles influíram na vida de todos os habitantes do planeta, entretanto eles agiram sem sentimento de responsabilidade, como se fossem alunos do jardim de infância. E agora – vocês os ouviram – eles podem se defender dizendo: “Nós não sabíamos”, “Nós não podíamos imaginar que era assim”.

Como era possível este desconhecimento? Será que eles nunca viram viajantes em situações desagradáveis por não poderem se comunicar com os habitantes locais? Será que eles não notaram que o investimento de nossa comunidade mundial no ensino de línguas era gigante, mas os resultados miseráveis? Quando eles participavam de reuniões internacionais eles não tinham consciência de que intérpretes estavam nas cabines, que a voz ouvida não era a do orador, que o uso simultâneo de tantas línguas necessariamente custava muitíssimo? Será que eles não sabiam que por todo o mundo milhões e milhões de crianças estressam seus cérebros tentando dominar a língua inglesa, a qual se mostra tão esquiva, que em média, após 7 anos de aprendizado com quatro horas por semana, de cada 100 alunos, apenas um é capaz de eficientemente usá-la? Será que eles não leram nos jornais sobre os aviões que sofreram acidente pela não comunicação linguística entre a torre de comando e o piloto? Alguns deles têm o inglês como língua materna. Será que eles nunca se sentiram superiores em relação aos estrangeiros com os quais eles falavam, e será que eles nunca se perguntaram se isto era normal e justo? Outros não tinham o inglês como língua materna. Será que estes nunca se sentiram inferiores aos seus colegas de língua inglesa? Será que estes nunca se sentiam aborrecidos numa discussão, porque as palavras necessárias não lhes vinham na memória, enquanto que os outros podiam explorar todas as riquezas de sua língua materna? Como é possível viver em nossa sociedade e não perceber que o problema linguístico existe?

INDIFERENÇA ESCANDALOSA
Vamos supor algo impossível e imagine que eles conseguiram viver uma vida
internacional nunca reconhecendo os aspectos negativos da realidade linguística. Em seus níveis na sociedade, será que eles poderiam competentemente ter responsabilidades em escala mundial, não sabendo como a comunicação funciona? Era o dever deles saber, ainda mais porque eles tinham o dinheiro e os empregados para coletar informações, para organizar pesquisas, se necessário. O motivo pelo qual eles não sabiam é que o tema não lhes interessava. E isto não os interessava por falta de compaixão: eles não eram capazes de fremir com o sofrimento; cumplicidade com o semelhante não havia neles. Com uma indiferença escandalosa eles ignoravam a sorte de milhares de refugiados e trabalhadores estrangeiros, para os quais a incapacidade de se entenderem, pela falta de uma língua comum, era a fonte de injustiça e miséria psicológica, e até de morte. Vocês ouviram as testemunhas.

Não vai ser fácil esquecer o caso do hospital alemão, onde 50 por cento dos pacientes morreram após enxerto, apenas porque, por falta de uma língua comum com os empregados do hospital e enfermeiros, eles não entenderam as instruções dadas para eles. Estas realidades, nossas “elites” ignoraram. Se a polícia tratou injustamente um estrangeiro, porque este não conseguia fazer se entender, isto não incomodou a elite. Se o diretor de uma pequena empresa não conseguiu receber para a sua companhia um contrato importante, porque o seu nível de inglês não era adequado para o tratado, por que isto as perturbaria? Se o dinheiro muito importante para todas as espécies de objetivos sociais foi abundantemente jogado no abismo profundo da comunicação linguística burocrática, sobre isto eles deram de ombros. E, no entanto, será que não era uma de suas responsabilidades escolherem humanamente o que fazer com o dinheiro recebido dos cidadãos?

Pegarei apenas um exemplo, entre os muitos que poderia citar. Enquanto os acusados tiveram o poder, muitas crianças africanas morreram de desidratação: esta falta de água no organismo foi tão extrema que as crianças não podiam produzir lágrimas quando elas deviam chorar. Curar uma criança custava apenas 5 centavos de dólar. Mas não foi possível encontrar dinheiro para salvar crianças que foram lançadas neste horror. Não é estranho que, ao mesmo tempo, a União Europeia diariamente gastava milhões de dólares para traduzir a carga diária de 3 milhões de palavras?

Quando os acusados foram informados sobre as tragédias diárias, por exemplo, sobre a fome mundial, com uma compaixão aparente eles balançaram a cabeça a se lamentarem sobre a falta de dinheiro, mas fizeram isto sem sentir algo errado nestas organizações que traduzem milhões de palavras ao custo de 2 dólares por palavra. Que elite é esta? Será que não é evidente até mesmo para uma pessoa simples que aquilo que se gasta com um objetivo não é disponível para outro? E que, como resultado, definir prioridades convenientes é o dever moral mais sério? Apesar disto, em todas as organizações internacionais, e delas existem muitas, eles nunca hesitaram em atribuir gigantesca quantidade de dinheiro aos serviços linguísticos. Aliás, nunca veio na cabeça deles a ideia de efetivar estudos objetivos sobre quanto os multifacetários problemas linguísticos custam para a sociedade mundial e quais as maneiras de resolvê-los. A sociedade poderia ser linguisticamente mais bem organizada? Eis uma pergunta que eles nunca fizeram para si. “Nós fizemos aquilo que era possível. Não havia outra solução”, eles afirmam.

SOLUÇÃO EXISTIA HÁ TEMPOS
Será verdade que não existia outra solução? Mas o Esperanto existia! Ele já era usado há um século. Para aqueles que se mostraram suficientemente sábios para dele se apropriarem, ele proporcionou comunicação admirável sem obrigar a investir nem mesmo um vintém em serviços linguísticos, sem discriminação entre os povos e após um investimento de tempo e dedicação moderados (já era sabido que 6 meses de Esperanto conduzia a um nível de comunicação igual ao que se gasta para seis anos de inglês). Mas para os distintos membros de nossa “elite”, esta alternativa, esta maneira de resolver o problema linguístico com uma relação custo-benefício mais favorável, simplesmente não existia. Quando alguém chamava a atenção sobre ele – e isto acontecia com frequência; as provas estão em vosso processo – eles sistematicamente impunham uma série de argumentos, sempre os mesmos, sempre excludentes, nunca tendo controlado tal validade.

“O Esperanto não funciona”, eles diziam, enquanto que era fácil participar de uma reunião internacional ou um Congresso em Esperanto para descobrir que este instrumento de comunicação linguística funciona melhor que qualquer outro sistema rival, seja o inglês, seja a tradução simultânea, ou outro qualquer.

“Ele é artificial”, eles diziam, se recusando a, quando convidados, verem crianças brincando e rindo em Esperanto com tal espontaneidade de expressão, que a afirmação deles se revelaria logo preconceituosa, e não achando estranho o fato de se falar em microfones e escutar por fones de ouvido a voz de outro que não o falante, que, (vocês reconhecerão) não se impõe como uma maneira natural de se comunicar.

“Ele não tem cultura”, eles afirmavam, nunca tendo lido uma linha de um poema em Esperanto, não sabendo nada sobre o desenvolvimento do teatro em Esperanto, ou literatura, nunca tendo ouvido uma palestra nesta língua.

“O Esperanto é rígido e pobre de expressão”, eles repetiam, nunca o tendo submetido a uma análise linguística, o que os obrigaria a concluir que ele é mais flexível e rico em expressões, graças à plena liberdade de combinar elementos, do que muitas línguas de prestígio.

“Ele não é uma língua viva”, eles argumentavam não sabendo nada sobre a comunidade que diariamente o usa, e nunca se perguntando, quais são os critérios de vida linguística, e se o Esperanto responde a eles ou não.

“Seria lamentável se os povos tivessem que abrir mão de suas próprias línguas para se apropriarem de algo novo como este idioma” eles diziam, não se interessando pelo fato que o Esperanto nunca teve como objetivo substituir as outras línguas, mas era simplesmente um recurso prático de superar a barreira linguística, assim como o latim na Europa da Idade Média, e ignorando as informações sobre mortes de línguas (morria uma língua a cada semana nos anos 2000) causadas pela destruição eficiente de algumas assim chamadas “grandes” línguas, principalmente a língua inglesa, a qual muitos sociolinguistas chamavam de “língua assassina”.

Felizmente ocorreu uma revolução linguística
Não haveria sentido insistir sobre estes preconceitos. Vocês sabem o quanto eles valem. 25 anos depois que os cidadãos se rebelaram e a revolução linguística ocorreu, vocês estão vendo quanto o mundo evoluiu para uma melhor condição de vida. Vocês agora podem viajar pelo mundo sem se deparar com o problema de comunicação. As organizações internacionais não devem mais enfrentar os custos astronômicos de seus serviços linguísticos, de maneira que gigantescos recursos financeiros ficaram disponíveis para projetos sérios e substanciais. Jovens de todos os lugares do mundo, depois do exame do curso básico de Esperanto estudam outras línguas escolhidas pelos seus próprios gostos ou interesses, o que acelera a diversidade de pensamento de toda nossa sociedade (fator de fecundação de ideias), ao mesmo tempo favorecendo uma compreensão autêntica e recíproca.

Os muitos efeitos negativos do monopólio do idioma inglês sobre a vida cultural de muitos povos (na maioria das escolas do mundo era praticamente impossível estudar outras línguas estrangeiras) cada vez mais desaparecem. Refugiados e trabalhadores estrangeiros agora são entendidos, para onde quer que eles vão. Especialistas participantes de discussões internacionais são escolhidos por suas competências, e não mais pelas suas capacidades de usarem o inglês, que excluía muitos, porque, como vocês sabem, muitas pessoas talentosas em matemática e tecnologia, só com muito esforço conseguem aprender outras línguas. Na Inglaterra, EUA, e outros países de língua inglesa, estudantes descobrem culturas estrangeiras sob um novo ponto de vista, e o dever de aprender um novo idioma rigoroso, mas fácil e psicologicamente mais aceitável, tem um efeito positivo para uma abertura para o mundo e para seus desenvolvimentos culturais e intelectuais. Na Índia, o conflito entre as partes, de um lado os favoráveis ao inglês e de outro lado do hindi, parou de existir, e mesma sorte tiveram os conflitos linguísticos na Bélgica, República dos Camarões, Nigéria e muitos outros países.

Na verdade, a humanidade deve muitíssimo àqueles que fizeram pressão aos países, para que estes organizassem cursos de Esperanto pelo mundo todo. Mas devemos um agradecimento especial aos secretários de governo que insistentemente se esforçaram para que vigorasse a primeira Declaração que oficialmente restabeleceu a verdade sobre o Esperanto. Por causa dela, nossa língua internacional pela primeira vez foi vista segundo uma perspectiva justa. Quando o público tomou conhecimento que durante décadas foi enganado, a língua começou a fazer sucesso, por isto ela rapidamente foi divulgada até mesmo antes que seu ensino geral fosse organizado.

GRAVE RESPONSABILIDADE
Se achei útil citar algumas enormes vantagens, que agora todos nós gozamos pela mudança de atitude em relação ao Esperanto, meu objetivo é acentuar a responsabilidade dos acusados pelo fato que esta mudança ocorreu tão tarde. Já em 1920 a Liga das Nações realizou uma pesquisa objetiva sobre o tema e recomendou aos Estados-membros em todo o mundo organizarem o ensino do Esperanto, para que ele se tornasse a Segunda língua de todos. A Liga percebeu isto como a melhor maneira para que se tivesse efetivado uma comunicação igualitária e internacional, que garantisse ao mesmo tempo a sobrevivência e prosperidade de todas as línguas e culturas. Mas eles ignoraram a recomendação da Liga. As boas qualidades do Esperanto sempre foram visíveis a qualquer um que fosse intelectualmente honesto e de interesse claro. Já nos anos 1930, a literatura em Esperanto e o uso da língua em encontros internacionais estavam tão desenvolvidos, que negar seu valor cultural e humano era possível apenas se se desistisse da própria honestidade ou o dever de ser objetivo. Então, durante décadas, a “elite” se absteve. Quando alguém fazia uma proposta com o objetivo de acelerar o uso do Esperanto, os membros desta assim chamada elite reagiam de maneira totalmente contrária e sem basear suas respostas em considerações objetivas. Nunca eles tinham a percepção de que deveriam provar suas afirmações. Que o Esperanto valia nada, isto eles consideravam evidente. Eis porque eles são dignos de serem condenados. Este processo deve ser útil como exemplo para mostrar ao povo do mundo que a falta de um sistema democrático, a eliminação da objetividade, a recusa de controlar os fatos, a decisão de rejeitar uma proposta antes de estudá-la, a indiferença diante do sofrimento e a negligência com referência às prioridades baseadas em considerações éticas não podem ficar na impunidade.

A sociedade tem direitos. O direito à comunicação é um direito que a gente deve respeitar seriamente, assim como o direito a um tratamento igualitário. Quando os acusados dominavam a vida social, eles manipularam a opinião pública de uma maneira sutil, impondo nas mentes das pessoas uma série de equívocos, que em grande parte contribuíram para que a língua internacional neutra Esperanto tenha sido introduzida na sociedade de uma maneira tardia. A todos vocês, atualmente, é evidente que pessoas colocadas em situação de inferioridade, porque elas não podiam se exprimir numa língua estrangeira, eram vítimas de um sistema de comunicação mundial. Mas a assim chamada elite obrigava a olhar estas pessoas como culpadas. Culpadas pela tendência de não estudarem, por preguiça ou inferioridade cerebral. “Se eles não são capazes de se comunicarem, os culpados são eles mesmos: era obrigação deles estudar línguas”, eles insinuavam, nunca perguntando a si próprios se dominar outra língua nacional é possível para todos, e se não existe uma alternativa mais propícia para a ordem linguística mundial, ou melhor dizendo, desordem.

Não podemos absolvê-los
Senhores, nada poderá inocentar os acusados. Eles vivem num século no qual na justiça, assim como na ciência, nenhuma conclusão é tirada antes que os fatos sejam analisados. A despeito deste princípio, eles nunca se inteiraram sobre os fatos relativos ao Esperanto em seus raciocínios, e eles repetidamente concluíam que não havia sentido buscar um sistema melhor de comunicação entre os povos do que o caótico e desigual sistema que reinava em todo lugar. Eles vivem num século no qual quando muitas possibilidades se apresentam, devem-se compará-las para poder escolher as propostas que apresentam as melhores vantagens e as que têm menos desvantagens. Vocês viram estas pessoas. Perguntados quando eles compararam na prática, segundo uma série de critérios predefinidos, os diversos sistemas de comunicação internacional, inclusive o Esperanto, eles vergonhosamente olhavam para o chão. “Sobre isto a gente nunca pensou”, murmurou um deles. Mas, eles confessaram que em outros campos, quando eles tiveram que usar o dinheiro dos que pagavam impostos ou dos acionistas, eles lançavam editais para ofertas ou propostas, ou de outra maneira, consideravam uma série de possibilidades para compará-las e escolher a melhor.

Eles vivem em um século em que a discriminação é ilegal. Mas, suas atitudes em relação às pessoas que tentavam torná-los conscientes sobre as potencialidades do Esperanto, e sobre sua realidade, frequentemente eram discriminatórias; eles logo despachavam estas pessoas sem as escutá-las, sem ler ou considerar de uma maneira adequada seus documentos. Assim aconteceu de uma maneira notável como vocês descobriram ouvindo as testemunhas, junto à União Europeia, mas muitos outros exemplos poderíamos apresentar a vocês. Nenhum fato que possa absolvê-los existe em favor deles. Até agora há uma dúvida se eles têm consciência sobre a amplitude de frustrações, dos sofrimentos, dos inúteis desperdícios de tempo e energia, das perdas, do desperdício inaceitável e dos sofrimentos que foram causados por causa da ignorância sobre as realidades linguísticas deles. Todos os aspectos negativos da desorganização linguística, os quais evitar seria tão fácil, como prova nossa atual maneira de viver, eles olhavam como inevitável, assim como a escravidão, durante séculos era vista como algo normal, de tal modo, que até mesmo os escravos viam como um aspecto inevitável da vida. Durante muitas décadas, as inúmeras vítimas da desordem linguística mundial eram mentalmente manipuladas para que elas acreditassem que para tal situação não havia alternativa. Isto é imperdoável, haja vista o nível intelectual dos responsáveis, assim como se levarmos em consideração seus treinamentos, científico e político, que necessariamente os educaram sobre a necessidade de serem objetivos e controlarem os fatos.

Senhores jurados, vocês devem para a justiça e também para as gerações futuras uma declaração clara e contundente de que aquelas pessoas foram culpadas. O presidente do tribunal agora os orientará sobre como...
(aqui o texto se interrompe abruptamente)
Traduzido por João Manoel Aguilera Júnior

Para quem se interessa em aprofundar-se no tema, leitura imprescindível é o livro O Desafio das línguas, de Claude Piron. Acessível em
 http://www.kunlaboro.pro.br/download/o-desafio-das-linguas.pdf.