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sábado, 17 de março de 2012

BODAS DE OURO (ALQUÍMICO)

meio século de convívio
com um não-sei-bem-o-quê
muito pouco de alívio
muito muito de sofrer
     cinquenta anos: enganos
     desenganos reenganos
     a dor por mestre implacável
     o mal dito incurável
     debocha das medicinas
     - dor sem remédio e sem tédio
     dor que dói e que azucrina
posso sentir na pele
ardor sem pé nem cabeça
ou secura que revele
tudo o que eu já não conheça:
     noites com sono ausente
     afogadas num edema
     se transformam de repente
     num bom mote de poema
a pele e sua escritura
são o papel e a pena
que registram a tortuta
da poesia no poema
     alopatia isopatia
     homeopatia o teu pra sogra
     mesmo a naturopatia
     fica tudo a mesma droga
que a coceira vem vermelha
ora empola ora arrepia
isto até já se sabia...

     em que a dor se assemelha
     com a flor da poesia?