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sexta-feira, 29 de março de 2013

RESGATE DA DELICADEZA


                                                  Paulo Nascentes

Dentro do meu coração o alarme toca,
meu instinto de bombeiro acende, alerta,
os sentidos treinados. O que me provoca
este grito, morto na garganta? Na certa,
o desmoronar de algo no meu peito.

Presente divino à minha irmã chegado,
minha amada sobrinha tinha luz no riso!
Mãe e filha, amigas, cultivavam o respeito,
o carinho, o amor, o diálogo sensato,
mas o que agora sinto... me põe de sobreaviso.

Incêndio de paixões, inundação, desastre,
deslizamento de emoções, desabamento,
o que me impele à ação? Antes que o fogo alastre,
antes que a casa caia e venha o ferimento,
é preciso devolver felicidade a elas,
deixar o sol entrar, escancarar janelas,
permitir desabrochar novo contentamento.

Tento dormir, mas o grito de socorro
atravessa os estados, chega até Brasília.
Dentro de mim a lama desce o morro
como se soterrasse o brilho de uma filha
que deixasse escapar a boia que lhe atiro.

Mesmo um bombeiro calejado
respeita o livre arbítrio e só atua
se o chamado vier - mas se não vem,
sono adiado, alerta, a prontidão continua.
Mesmo sem dormir, sonha sonho delicado:
tem nos braços, a salvo de si mesma, 
a menina que um dia viu neném.

O cansaço, o sono e uma luz: vê no rescaldo, acesa,
a centelha divina, fogo já domado, de volta à alma
e num milagre, eis o resgate da delicadeza!